Leia
este trecho do livro Ora, vírgulas!
( ... )
a menina saiu da cozinha, sentou-se no degrau que dava para o quintal. Pegou o
livro que deixara ali caído, antes de entrar para tomar café.
E quase
caiu do degrau quando começou a ler!
O livro dizia:
O menino sabido como ele
só tinha uma cachorrinha
com três filhotes e o pai do menino
era uma
gata amarela esperando
cria também do menino
era todo bicho que aparecesse
no quintal com cara de fome.
"Ou
eu fiquei biruta ou o livro é que ficou!" - pensou Stela. - "O pai do
menino era uma gata? O quintal tinha cara de fome? O menino era pai da cria da
gata? Esses escritores escrevem cada vez mais esquisito ... "
Foi
então que percebeu o pássaro ainda no quintal, pousado no muro, comendo
bichinhos. Um deles escapou do bico afiado e caiu ao chão, bem em cima de um
jornal velho. Stela ficou curiosa e foi ver que bicho era.
Formiga?
Mosquito? Que nada, era uma vírgula. E mal se viu caída no papel do jornal,
arrastou-se em meio às palavras escritas procurando um lugar onde se encaixar.
Logo deu com a data e se enfiou entre um "São Paulo" e um "16 de
novembro".
Stela
olhou as coisas escritas no resto do jornal. Não tinha sobrado mais nenhuma
vírgula ali! As frases estavam parecidas com as de seu livro - estranhas,
compridas e sem nada para separar palavras além de espaços e pontos finais.
Que
descoberta! Aquele pássaro havia devorado as coitadinhas e voado do quintal com
a barriga cheia.
"Até
que é bom se ele acabar com todas elas" - refletiu a menina -, "botar
vírgulas nos lugares certos dá muito trabalho."
Rosana Rios. Ora,
vírgulas! São Paulo, Global, 1994. P.5.
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